Porque sou Charlie

Eu não vi as charges que Charlie Hebdo publicava. Nem procurei, como não procurei nada sobre o jornal, sua história, seus donos e profissionais. Não faço idéia de quem eram. Talvez depois desta análise eu pesquise, por curiosidade. Mas enquanto escrevo não sei quase nada sobre o jornal. Não importa. Sei que 12 pessoas foram assassinadas. Isso, e apenas isso, é que importa.

Sei também que eles publicavam charges. Acho que incidentalmente vi 2 ou 3. Não procurei outras. Não sei a qualidade das charges porque isso não está em análise, e nem sobre os alvos de seu humor. Me parece que os alvos principais eram as religiões, em especial o Islamismo, mas isso é irrelevante. O alvo podia ser eu mesmo, mas isso não altera em nada o fato de eu dizer: eu sou Charlie!

E por que eu sou Charlie? Porque entre a vítima e o algoz, meu lado é o da vítima. Porque entre a civilidade e a barbárie, meu lado é a civilidade. Porque entre a Liberdade e o obscurantismo, meu lado é a Liberdade. Entre o humor e o crime, meu lado é o humor. E sobre as questões aqui postas, lamento mas eu não respeito quem prefere o outro lado. Se há uma coisa que não deve ser tolerada, é a própria intolerância.

E não, não se trata de ver o mundo em preto e branco. Acontece que no álbum do mundo, há fotos em preto e branco, como a escravidão por exemplo. Não tem essa de “ver os 2 lados” aqui. Quem escravizou errou e quem foi escravizado foi vítima. Ou como a tortura praticada no Brasil contra militantes da oposição durante a ditadura. Por mais que eu deplore a ideologia de alguns dos torturados, aqui eu sou e sempre serei do lado dos torturados e contra os torturadores. Perguntar o que o torturado ou o escravizado eram ou fizeram antes de tomar uma posição é, por si, um posicionamento. Em crimes hediondos somente existem as vítimas, os que se solidarizam com estas, os algozes e seus cúmplices, ativos ou passivos. Estes últimos normalmente são os que relativizam os crimes horrendos.

Me lembro quando eu fazia parte do fórum de Direitos Humanos no antigo site orkut. De quando em quando, aparecia alguns que, quando o assunto era alguma ditadura(naturalmente uma violação de DDHH), sempre começavam com algum discurso do tipo “claro que não defendo ditaduras” e logo depois vinha um “mas” e depois desse “mas” vinha uma defesa de alguma ditadura. Por esses eu não tinha respeito algum, eram piores do aqueles que claramente falavam contra os Direitos Humanos, pois estes pelo menos eram sinceros.

A mesma coisa acontece agora. Começa com algum discursinho clichê do tipo “claro que não defendo assassinatos” seguido de um “mas” e daí o festival de cumplicidades com o crime e a intolerância. 12 pessoas foram assassinadas por causa de humor, 2 foram os assassinos por causa da truculência. Não tem “mas” nesta história. A qualidade ou o tipo do humor é irrelevante. Houve um crime horrendo, por motivo horrendo e restou bastante óbvio quem foram os criminosos e quem foram as vítimas. Relativizar tal crime por qualquer motivo é equivalente idêntico a acusar a vítima de estupro de ser ela própria a causadora do crime por algum motivo idiota como o tamanho da saia, por exemplo. Sempre tem algum babaca com esse tipo de “argumento”.

O que é assustador aqui é o perfil de quem relativiza ou até apóia este crime. Fossem os tapados que elegem certo deputado racista e homofóbico ou alguns fanáticos religiosos, não seria de surpreender. Mas não, a maioria da cumplicidade passiva no caso atual vem do lado de quem se diz, pasmem, “progressista”. Vergonha!

Tanta vergonha que colocarei aspas toda vez que me referir a estes “progressistas”. O progressismo é justamente o contrário do obscurantismo, da intolerância e da ignorância. Progressismo  é civilidade, razão, laicidade, respeito à Liberdade e aos Direitos Humanos, nunca a intolerância ou relativização de crimes contra a humanidade ou contra os valores defendidos pelo próprio Progressismo.

A própria DUDH defende a Liberdade de Expressão de forma absoluta em seu artigo 19:
“Todo o homem tem direito à liberdade de opinião e expressão; este direito inclui a liberdade de, sem interferências, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e idéias por quaisquer meios, independentemente de fronteiras.”

Enquanto isso o “progressista” de araque tenta cada vez mais tolher a liberdade de expressar idéias e pensamentos.

Talvez por ingenuidade, progressistas que lutam contra o obscurantismo tradicional miseravelmente tem sido tolerantes com obscurantistas de outro tipo que invadem suas(nossas) fileiras e traem os ideais progressistas originais, pervertendo-os pra sua própria truculência, tentando inclusive criminalizar humoristas. Era de se esperar que num caso como o do jornal Charlie, a reação fosse a cumplicidade disfarçada de neutralidade. Mas o que esperar de gente que faz escândalo com uma piada infame da loira ao volante no Ocidente que relativiza o fato de mulheres serem chicoteadas em praça pública noutros cantos do mundo? Gente que, com razão, critica a permissão legal que a “legítima defesa da honra” dava aos maridos pra matarem suas mulheres enquanto defende governos que condenam a morte mulheres adúlteras? Essas pessoas nunca defenderam as mulheres(e nem ninguém), esses “progressistas” de araque sequestraram a causa progressistas e colocaram no lugar sua agenda ideológica tão obscurantista quanto a que o progressismo iluminista combateu desde sempre. Como isso foi acontecer? Por que permitimos e ainda continuamos a permitir tal perversão?

Uma mostra do que esses “progressistas” tentam defender é a indignação com as manifestações de apoio a Charlie. Disfarçam com o bordão “porque não são também…alguma outra coisa?”. Oras, desde quando se solidarizar com uma vítima é esquecer outra? Desde quando chorar o massacre em Ruanda é desprezar ou apoiar o massacre em Timor Leste? O que essa corja mal consegue disfarçar é o que verdadeiramente os indigna, ver as pessoas defendendo valores verdadeiramente progressistas, coisa que eles não suportam.

Se há algo que se salve neste episódio é a reação mundial a ele. Numa época em que as pessoas estavam com medo de defender a liberdade de tanta propaganda negativa que esta sofreu, numa época em que o artigo 19 da DUDH estava quase virando crime(Edward Snowden discorda do quase), milhões de pessoas em todo o mundo saíram as ruas pra bradar “Eu sou Charlie” e defender a Liberdade de Expressão. Gente de direita e de esquerda, brancos e negros, homens e mulheres, ateus, agnósticos e religiosos, incluindo ai milhares de muçulmanos, em defesa da livre expressão de idéias e do humor. A quase totalidade de veículos de comunicação fez o mesmo, e muitos chefes de Estado participaram. Estes últimos provavelmente por motivos pouco nobres, mas o importante é que eles podem e tem de serem cobrados por sua presença nas manifestações sempre que flertarem com a censura.

Eu sou Charlie porque este é um momento histórico pra defender o que todo progressista deve defender. Faço minhas as palavras do escritor Philip Pullman sobre seu livro que também desagradou religiosos:
“Ninguém tem que ler esse livro, ninguém tem que pegá-lo, ninguém tem que abri-lo, e se você abre e lê, você não precisa gostar dele, e se você lê e não gosta, você não precisa ficar em silêncio, você pode escrever pra mim, reclamar dele, pode escrever para editora, para os jornais, pode escrever seu próprio livro, mas seu direito termina aí. Ninguém tem o direito de me impedir de escrever este livro, ninguém tem o direito de impedir que seja publicado, ou comprado, ou vendido, ou lido”

E acrescento que isso vale pra livros, músicas, filmes, poemas e piadas!

Se alguém ficar chocado com seu o conteúdo, pode ignora-lo. E pra outros crimes como calúnia ou incitação criminosa, que nada tem a ver com liberdade e nem com expressão já há previsões legais. Uma expressão não é uma coisa que saia da boca. Uma charge é uma expressão, uma música é uma expressão. Gritar fogo no cinema não é expressão. Pode-se obter o mesmo efeito jogando um morteiro no cinema. Não passa de um ato de terrorismo barato.

E que bom que progressistas de verdade começaram a ver com quem tem lidado há algum tempo.  Ainda há tempo pra resgatar o Progressismo que aprendemos com verdadeiros progressistas, como:
Rosa Luxemburgo(“A verdadeira liberdade é a liberdade daqueles que discordam de nós.”);

Noam Chomsky(“Se você acredita na liberdade de expressão, você acredita na liberdade para exprimir opiniões de que você não gosta”);

Voltaire(“Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las”).

Por falar nisso, um dos 12 mortos, o policial Ahmed, muçulmano, literalmente defendeu até a morte o direito dos chargistas de Charlie Hebdo fazer charges humorísticas com o Islã. Ele também está sendo homenageado com Justiça, o que mostra o que disse logo no início. Pouco importa de quem Charlie ria, pouco importa se ria até de mim. Pra quem não entende de humor, só se ri de quem se considera como igual, de quem se respeita. Ninguém ri de uma bactéria ou de uma enceradeira, e mesmo quando rimos da piada paródia da fábula da formiga e da cigarra, estamos rindo dos arquétipos humanos ali representados. Se riem de mim, minha dignidade enquanto humano ainda existe. E rir é um ato tipicamente humano.

Eu sou Charlie, eu sou quem ri com Charlie, eu sou de quem Charlie ri. Porque piadas não matam, balas de fanáticos radicais sim.

Futebol: O racismo, a ignorância e a hipocrisia!

Semana passada, ao final da partida de ida entre Grêmio e Santos, pela copa do Brasil, torcedores do Grêmio insultaram o goleiro santista, negro, chamando-o de macaco. Câmeras de TV flagraram uma torcedora chamando o jogador de macaco. Nesta semana, em julgamento realizado no STJD, o Grêmio foi excluído da copa como punição pelo ato de seus torcedores. Desde então, uma série de análises, raramente desprovidas de algum tipo de paixão ou ideologia, fizeram uma bagunça no caso, e isso partiu tanto dos que concordaram como dos que criticaram a decisão do STJD. Tentarei nas próximas linhas ao menos organizar um pouco os conceitos, pra explicar melhor o que está acontecendo.

 

Muitos críticos da decisão defendem que um clube com milhões de torcedores não pode ser punido pelo que alguns de seus torcedores fazem. Aqui está a primeira confusão; confundem leis penais, que regulam uma sociedade e pode encarcerar um ser humano, com regras esportivas, que servem tão somente pra organizar competições de cada esporte e podem, no máximo, impedir jogos ou a participação de certos atletas nele. É evidente que um processo na Justiça deve ser bem mais apurado e personalizado. Apenas o autor do crime ou delito, devidamente identificado e comprovado o ato, deve ser punido de acordo com a gravidade de sua ação e nos limites da lei. Já um processo no tribunal esportivo tem como principal finalidade manter o campeonato organizado e seguro pra seus participantes, sejam atletas ou espectadores.

 

Dito isso, no esporte clube e sua torcida não são entes separados. Um existe em função do outro. Cabe sim ao clube evitar que sua torcida atrapalhe a realização de partidas do campeonato disputado, tais como riscos a segurança de outros torcedores, atletas de outras equipes e ao árbitro. Os clubes alegam que não sabem como controlar os atos de seus torcedores, mas exemplos do mundo inteiro mostram que quando eles, os clubes, são punidos, descobrem rapidamente como controlar seus arruaceiros. Um exemplo clássico são os hooligans ingleses, que tocavam o terror em estádios europeus. Quando todos os clubes ingleses foram excluídos da UEFA por anos pelos atos monstruosos da torcida do Liverpool, que resultou na morte de dezenas de torcedores italianos da Juventus nos anos 1980, os estádios ingleses voltaram a ser locais seguros pra pessoas civilizadas assistirem tranquilamente a uma partida de futebol. Por isso mesmo eu fui a favor da eliminação do Corinthians da Libertadores quando houve o trágico episódio na Bolívia, em que torcedores do Corinthians mataram um torcedor do time local. E pelo mesmo motivo, fico indignado pelo mesmo STJD ser tão tolerante com clubes cuja torcida matam e ferem gente todos os anos no Brasil. Enfim, o que a torcida, ou parte dela faz é sim responsabilidade do clube, e se não são todos os torcedores que fazem distúrbios(nunca são todos), cabe também ao torcedor que se pretende civilizado ajudar o clube na tarefa de banir os bandidos de seu meio, afinal, todos os que estão na arena do jogo fazem parte do espetáculo, e isso quem diz são os próprios clubes e suas respectivas torcidas.

 

Então o principal(se não for o único) argumento contra a decisão do STJD até agora não se sustenta. O que deve ser analisado é se o que aconteceu na Arena Grêmio era caso pra punição, e aqui é que eu discordo dos que aprovaram a decisão do STJD.

 

Pra começar devo desfazer aqui uma nova confusão. O total desconhecimento das leis por parte da grande maioria dos que não operam com o Direito e até de muitos de seus operadores, juízes inclusos, o que é um desastre. O que a torcedora flagrada fez não se encaixa em nenhum dos artigos da lei 7.716, que trata do preconceito racial. Nem no muitas vezes confuso artigo 20 da referida lei, que apenas versa sobre induzir ou incitar ao cometimento dos crimes especificados nos demais artigos. O que a torcedora do Grêmio fez se trata do artigo 140, §3º do Código Penal, que é injúria agravada por motivação racista. A prática do racismo está ligada a negação de direitos por motivos raciais, enquanto a injúria por motivo racial é outro crime, é a própria injúria agravada por motivo torpe. É só conferir os textos da lei 7.716 e do artigo 140, §3º do Código Penal. Se é constrangedor leigos em Direito não entenderem que são crimes distintos, é um descalabro que gente da área cometa esse erro. E essa confusão infelizmente tem, com a lamentável colaboração da Imprensa, acontecido frequentemente.

 

Mas o ato de injúria promovido por um torcedor não seria motivo de punição ao clube? Se for, então praticamente todos os clubes do Brasil, incluindo o meu querido Juventus com seus 200 torcedores, terão que ser punidos. A própria imprensa não para de repetir que “torcedor pode xingar, tem direito, só não pode invadir o campo e nem jogar nada nele”, como eu já cansei de ouvir de jornalistas esportivos. Ofensas aos adversários, aos árbitros e até aos próprios atletas do time, dependendo de como está o jogo, são frequentes. Alias, eu creio que uma das funções da arquibancada é essa mesma, permitir ao torcedor extravasar verbalmente suas emoções. 

 

Sou contra a punição por xingamentos de torcedores, mas se tiver que punir, então puna todo clube cuja torcida ofender, e pode incluir ai até os torcedores que estão chamando os gremistas de racistas, generalizando a torcida inteira, e aí nem é mais por injúria mas sim por calúnia mesmo(é bom esclarecer antes que façam nova confusão). O Grêmio foi punido com base no artigo 243-G do CBJD. Vejamos o que ele diz:

 

Art. 243-G. Praticar ato discriminatório, desdenhoso ou ultrajante, relacionado a preconceito em razão de origem étnica, raça, sexo, cor, idade, condição de pessoa idosa ou portadora de deficiência: (Incluído pela Resolução CNE nº 29 de 2009).

 

Então, com base no artigo acima, o STJD vai ter muito trabalho com quem grita “moleque”, “velho gaga”, “anão”, “aleijado”, “cego”, “retardado”, “menina”(no sentido pejorativo) e muitos outros.

 

Alguns poderão argumentar que a injúria pode ser permitida desde que não seja por motivos racistas, por ser mais grave. Como assim? Quem pode aferir a gravidade da ofensa senão o próprio ofendido? Quer dizer que se o goleiro fosse homossexual, poderia ser chamado de “viado”? Por que a distinção? E as demais ofensas como “filho da puta”, “bunda mole”, “bandido”, “ladrão”(e aqui entramos na calúnia novamente), “canalha”? Essas podem? Como fica o infeliz cuja honra é o que ele mais venera? E o sujeito que ama demais a própria mãe? Macaco não pode, mas gambá, porco, galinha e sardinha podem?

 

Ofensa é um conceito individual e personalíssimo, só o ofendido sabe o que sente. Tenho um amigo negro que não se importa de ser chamado de macaco, mas quem xingar a mãe dele pode se preparar pra apanhar. E mesmo as “ofensas pequenas”, ou as assim socialmente tidas, são subjetivas. Provavelmente um narcisista e alguém que já foi feito de otário talvez prefiram ser xingados de qualquer outra coisa menos de feio ou de bobo. Então o ato de ofender deveria ser tratado com equidade, seja pra punir em todos os casos ou em nenhum.

 

Pelo exposto acima, sou totalmente contra a punição ao Grêmio e digo que foi um absurdo. Embora eu seja contra a punição por xingos de arquibancada, até me conformaria se todas as ofensas fossem punidas, mas sei que isso não vai acontecer. E não vai acontecer porque a moral é: “ofender é errado se não for a ofensa que eu faço”. O tribunal faz sua demagogia punindo um clube por um tipo de ofensa, mas permite as demais, o que mostra que a intenção nunca foi civilizar. Aliás, como eu disse no início do texto, nem torcidas que matam tiveram seus clubes eliminados de nenhuma competição. Então não consigo deixar de concordar com outro xingamento que os gremistas estão fazendo, este com razão: “Hipócritas!”

 

 

Decisões trágicas

Recentemente o STJ decidiu não levar a juri popular um casal de testemunhas de Jeová acusados de homicídio doloso contra a própria filha. O caso, ocorrido em 1993, tratou-se de uma menina de 13 anos que sofria de leucemia e precisava de transfusão de sangue. Os pais não permitiram o procedimento por motivos religiosos e a menina morreu. O STJ entendeu que não houve homicídio doloso por parte dos pais e que cabia aos médicos fazerem o procedimento com ou sem permissão do casal.

Fanatismo religioso a parte, também considero complicado permitir uma religião, permitir seus dogmas, proteger juridicamente sua existência e seus seguidores, permitir que pessoas ingressem nesta religião e sigam seus dogmas, permitir a essas pessoas terem filhos e por eles serem responsáveis e depois condena-las por, de acordo com os dogmas permitidos e protegidos por lei, decidirem o tratamento que elas consideram melhor pra seus filhos. Explicando melhor, se um casal pode acreditar que transfusão de sangue desgraça quem a recebe, e é inclusive protegido a ter essa crença, como condena-lo por impedirem o que eles consideram uma desgraça aos seus próprios filhos?

Pode-se alegar que uma decisão, por mais estapafúrdia que seja, é direito de qualquer um em relação a sí mesmo mas não se aplica a terceiros. Falando assim parece que tudo ficou fácil mas quando o tal terceiro é alguém tutelado pelo tomador da decisão, complica muito. Sem entrar no mérito da qualidade da crença, seria como pedir a um pai a permitir que se faça algo com seu filho que este pai acredite que irá arruina-lo. Você permitiria algo a seu filho que você acredita que irá destruir sua vida?

Sendo assim, também considero que não cabe homicídio doloso a esses pais, uma vez que eles decidiram acreditando em algo permitido pela lei e por ela também são os responsáveis pela criança. Se a discussão for a permissão de crença a certos dogmas ou o pátrio poder a quem crê nesses dogmas, certamente as coisas mudam consideravelmente. Mas sendo a lei como é a atual, a condenação do casal seria, no mínimo, um contra-senso, por mais chocante e revoltante que tenha sido seu desfecho.

Mas isentar os pais de culpa e responsabilizar os médicos em casos como esse trazem sérios problemas, tanto de ordem jurídica como prática.

Problema 1

Como o médico fará o procedimento sem a permissão de pais ou responsáveis? Chamando a polícia? E vai alegar o que se de acordo com a Justiça os pais ou responsáveis não estão incorrendo em crime? Mandando a enfermeira mais forte do hospital segurar os religiosos? Chamar os seguranças do hospital incorre no que eu indaguei quanto a chamar a polícia. Se o médico for o Anderson Silva talvez facilite as coisas mas se o testemunha de Jeová for o Weidman, entra areia outra vez.

Problema 2

Caso o médico consiga sucesso, o que esperar de pais que entendem que ele desgraçou seu próprio filho?

Temos o defeito de analisar casos usando a nossa régua, mas proponho um execício retórico pra ajudar o leitor a entender o drama. Imagine que você leve seu filho ao pediatra e descubra que este abusou sexualmente de sua criança. O que você faria com este médico? São coisas bem diferentes? Certamente sim, mas isso sei eu e, espero, você leitor. Mas no caso do testemunha de Jeová, o sentimento é esse mesmo, o do médico ter desgraçado a vida de seu filho? E agora?

Problema 3

Como se não bastasse os problemas práticos e sérios com os pais, ainda tem a questão judicial. Muitos médicos respondem processos na Justiça tanto por fazer o procedimentos contra a decisão do paciente ou responsável legal como também por deixar de faze-lo. E tem decisões de primeira instância pra todos os gostos, com médicos condenados civil e penalmente por abuso num caso e por omissão noutro. Isso porque, pra variar, até hoje os legisladores não tomaram uma decisão definitiva sobre o que deve valer, se a decisão do médico ou a vontade do paciente ou responsável.

Enfim, como ninguém quer se incomodar com qualquer decisão que, não importa qual seja, causará revolta nesse ou naquele, vamos empurrando casos como esse sem segurança jurídica-e nem física em alguns casos-até algum tribunal superior tomar uma decisão que seja definitiva até outro-ou o mesmo-tribunal mudar o entendimento futuramente. Eu, por motivos que exporei em outra análise minuciosa, prefiro que a vontade do paciente seja determinante, mas já aceitaria que algum entendimento definitivo, seja ele qual for. Nem isso se tem.

E qual seria a solução neste caso? Num mundo lógico e justo, creio que não seria difícil solucionar o problema, mas definitivamente este não e o caso. Creio que não tenha solução fácil, se é que tenha ao menos uma solução difícil. Proibir certos dogmas religiosos? Proibir quem neles acredita de ter filho? Negar o direito de tutela ou pátrio poder a certos religiosos? Todas essas medidas abrem precedentes pra abusos que podem levar também a consequências desastrosas. As vezes penso que miseravelmente certas coisas tolas não tem concerto. Alguns nascem sem uma perna, outros nascem cegos e alguns outros nascem filhos de pais retardados. Deram azar. Paciência. Ou como acham que será a vida de um filho de testemunha de Jeová que recebeu transfusão de sangue, no cotidiano de uma família que agora o considera alguém que deve ser decepado de seu povo?

O talibacanal

Nesta análise não vou conceituar com exatidão o que vem a ser taliban ou bacanal. Suas origens e seus exatos significados fica pra quando eu fizer uma análise minuciosa sobre eles. Aqui vou usar somente as definições populares pra taliban e bacanal, que é o que interessa ao artigo.

 

E segundo tais definições populares, bacanal significa orgia e devassidão, e pode ser regada a drogas e bebidas, em muitos casos sem limites pra perversões ou idade dos participantes, com todos nus e fazendo sexo a lá turno e returno com pontos corridos, sem se importar com doenças ou em respeitar compromissos combinados com outros. Já o taliban é extremo oposto, significando repressão a sexo e a drogas, sendo que as mulheres devem estar totalmente cobertas e qualquer toque entre um homem e mulher fora do casamento ou feitos em público pode render sérias conseqüências a ambos. O desejo sexual é violentamente reprimido, mesmo que, ou principalmente, entre pessoas sem compromissos fazendo exatamente aquilo que desejam sem machucar ninguém. Não adianta, é pecado e deve ser severamente punido.

 

Pois bem, e o que seria então talibacanal? Primeiro vamos falar dos radicais e extremistas de qualquer coisa. Pessoas que ou odeiam com toda força o futebol ou são fanáticas por algum time. Ou são militantes ateus insuportáveis ou são fundamentalistas religiosos igualmente insuportáveis. Ou são racistas estúpidos ou chatos que vêem racismo em tudo. Ou são de extrema direita ou esquerdistas radicais. Enfim, gente que é ou taliban ou bacanal.

 

Para os extremistas e radicais não existe uma resposta sensata, razoável, inteligente, factível e de bom senso. Ou é taliban ou é bacanal. Nem pensar em analisar como fica o outro lado da moeda. Nada disso, se assume o compromisso com um lado e o outro ou não existe ou é um inimigo a ser aniquilado. E no melhor estilo da política popularizada por George W. Bush, que disse quem não estiver conosco, está com os terroristas, acusam qualquer um que não compartilhe de seu extremismo de ser exatamente o extremo oposto.

 

Se você, leitor, não for extremista de alguma coisa, será automaticamente acusado de, pasmem, ser ambos os extremos. Se você questiona algum artigo do PLC122, você é acusado de homofóbico, se entende que homossexuais devem ter seus direitos respeitados, é acusado de ser uma bicha louca, se critica a misandria de algumas feministas é acusado de machista responsável pela sociedade falocêntrica patriarcal, se critica o fato de mulheres não poderem votar ou sair sozinhas em alguns lugares é acusado de tentar desestruturar a família e a sociedade, se defende punição contra malfeitores ou o direito de defender-se deles é acusado de ser violador de Direitos Humanos, se defende o Estado Democrático de Direito é acusado de defender os direitos dos manos(SIC). Enfim, exemplos não faltam e se eu fosse listar todos os casos, provavelmente usaria toda a memória virtual do WordPress.

 

E o que leva as pessoas a posições extremas? São varias coisas que levam a este tipo de comportamento. Vou citar os principais:

 

Medo
A segurança de fazer parte de um grupo é vital na maioria das espécies animais e pessoas, assim como qualquer outro animal, também tem seus instintos biológicos. Abraçar uma causa com unhas e dentes, se radicalizar e estar disposto a tudo pela causa aparentemente aumentam as chances de continuar pertencendo ao grupo. Regimes como o fascismo mostram que esta tática rende resultados mas não é totalmente segura. Grupos extremistas ficam naturalmente paranóicos e seus membros não raro acusam em algum momento outros extremistas de não ser extremista o suficiente.

 

Limitação cognitiva
É fato que analisar qualquer situação de modo racional exige reflexão e capacidade de raciocínio. Ponderar uma questão leva tempo pensando profundamente sobre ela, ao passo que dizer que nós estamos sempre certos e os outros sempre errados simplifica tudo. O problema é que agindo assim, a chance de defender uma posição errada com afinco é enorme.

 

Apelo emocional
Admitir que um colega de causa esteja errado ou que quem defende o oposto esteja certo em alguma situação pontual é emocionalmente doloroso. Muito mais fácil e conveniente é jamais admitir essas hipóteses. Pode ser confortável inicialmente mas no caso de não ter mais como manter sua posição diante das evidências em contrário, o preço desta postura será muito mais doloroso emocionalmente.

 

Como facilmente se percebe, embora a posição extrema e radical possa ser sempre positiva a curto prazo, por qualquer lado que se veja ela será negativa a longo prazo.

 

E afinal, é possível tentar explicar a extremistas que suas posições lhes serão prejudiciais tanto a eles como aos demais? Não perca seu tempo, extremistas só vêem e ouvem o que querem. Inevitavelmente é você que será acusado de ser adepto do lado oposto. E se tentar manter contato com extremistas dos 2 lados, você será acusado de ambos os extremos. O adepto do taliban o acusará de ser bacanal e o adepto do bacanal o acusará de ser taliban. Curiosamente, na combinação da visão de ambos os extremistas você será um talibacanal, mesmo não sendo nem uma coisa e nem outra. Infelizmente, lidar com radicais extremistas não tem futuro. Quem tiver um projeto sério deve se afastar deles o quanto antes.

 

É uma pena que os extremistas, tanto do taliban como do bacanal não percebam que por mais que eles se digam antagônicos, eles estão muito mais próximos do que imaginam. Eles mesmo são, no conjunto final de seu radicalismo, talibacanais.

 

Consta a lenda que um morador do Artico encontrou uma fada e esta lhe concedeu um desejo. O pobre infeliz, não agüentando mais o frio local, pediu a fada pra que o enviasse pro lugar mais longe dali em todo o planeta. Foi parar na Antártida!

Fábrica de criminosos Brasil

Este é o terceiro e último artigo que escrevo sobre o caso do jovem que foi amarrado e espancado no Rio de Janeiro.

No primeiro, https://analiseminuciosa.wordpress.com/2014/02/09/direitos-humanos-liberdade-de-expressao-e-a-salada-tupiniquim/, eu expliquei o que são Direitos Humanos e Liberdade de Expressão e a confusão que as pessoas estavam fazendo com esses conceitos. No segundo, https://analiseminuciosa.wordpress.com/2014/02/16/justica-justicamento-e-legitima-defesa/, eu expliquei a diferença entre Justiça e justiçamento e as razões que levam a segunda. Neste eu vou abordar a existência de criminosos que culminaram nos acontecimentos dos 2 artigos anteriores.

 

Como se sabe, nesta semana o rapaz que foi vítima do justiçamento(algoz em outros crimes e vítima naquele específico) voltou a atacar, sendo preso após tentar assaltar turistas. Fato que infelizmente deu razão ao meu segundo artigo, aonde eu disse que ele deveria estar preso e que justiçamentos são inúteis. Este jovem, que está sendo combustível pra vários debates no Brasil, é apenas mais um produto desta verdadeira indústria de criminosos que existe no país. Como este, está cheio em todo o país, e já havia um monte deles há 10, 20, 30 anos. E se nada for feito, terá outros tantos nos próximos, 10, 20, 30 anos ou mais. E só aumentando.

Não são casos isolados de psicopatas que existem em qualquer lugar e classe social no mundo. São centenas de milhares de jovens entrando pro crime e tal fato não pode ser ignorado ou analisado superficialmente. Por que isso acontece? Por que uns jovens decidiram, após jogar videogame até enjoar, entrar pro crime pra se distrair? Não, não é por isso, óbvio! Será por causa da pobreza? Não exatamente, existem países com tanta ou mais miséria que o Brasil sem índices de criminalidade como os daqui. Seria a desigualdade social? Ela ajuda, ainda mais que a pobreza em si, mas também não responde satisfatóriamente, pois existem países desenvolvidos com bolsões de miséria e nesses lugares a criminalidade não chega perto daqui.

Pra entender melhor, o crime é a total ausência de cidadania, é ignorar completamente as leis e a autoridade e atacar as pessoas sem qualquer respeito, lhes roubando, violentando, encarcerando, etc…apenas por bens materiais destas ou de familiares, e muitas vezes tirando as vidas de suas vítimas, tendo ou não sucesso no ataque. Cidadania é a palavra, é o que os criminosos não tem. E por que eles não tem? Porque na fábrica de criminosos Brasil, uma grande parcela da população tem negada a cidadania desde cedo.

Ter ou não dinheiro não garante caráter ou a falta dele, mas, na prática, ao pobre e miserável brasileiros são negados direitos que parcela mais abastada da população pode contar. Não é só a limitação de poder de compra que a ausência de dinheiro acarreta. Este fator pode gerar alguns criminosos, mas não da forma epidêmica que vemos desde muito tempo. A ausência de cidadania, a negação de dignidade a jovens desde antes de cometerem o primeiro crime é a resposta maior, a que faz do Brasil um dos países mais violentos do mundo.

Vou dar alguns exemplos do que chamo de negação de dignidade e cidadania:

Na época do sucesso do Filme Tropa de Elite, uma revista de alta circulação brasileira publicou uma matéria com as estratégias do BOPE. Numa delas, a PM entrou na favela durante o dia e, alegando motivos de saúde, sacrficou todos os cachorros da favela, pra que não latissem durante operação noturna do BOPE. Não sei se a operação deu certo mas sei que a maioria dos leitores da referida revista apoiaram, gente que trata melhor que humanos a seus puddles ou seus yorkshires apoiaram a matança de vira-latas na favela por parte da polícia. Ai eu pergunto: E o guri favelado, que não tem nada, e a unica coisa que a mãe pode dar a ele foi um cachorrinho achado na rua? Esse guri que, como qualquer criança normal, adorou esse bichinho e o mesmo seja talvez sua única fonte de dar e receber amor numa família desestruturada. Como ele reage tendo seu animal arbitrariamente morto pela autoridade do Estado sob aplausos da sociedade? Que respeito deram a ele pra exigir algum depois?

Outro exemplo são meus amigos. Quase todos vão em algum momento a bares noturnos aonde varam a madrugada. A maioria deles é a favor da imposição de toque de recolher por parte da polícia nos bares de periferia. Alegam que “trabalhador não fica até 1 da manhã em bar”, e dizem isso em conversa de bar as 3 da manhã. Ou seja, o pobre não pode ter animal de estimação, nem que seja um vira-latas, ou se divertir a noite num bar, nem que seja um boteco podre. E quem defende isso tem cães caros e se diverte em baladas.

Pobre não tem dinheiro pra comprar roupa decente(entenda-se, roupa de marca) e em função disso é “justo” que seja parado todo dia pela polícia, com a “educação britânica” que a polícia dispensa a eles, mesmo quando são simples trabalhadores. Esses são apenas alguns exemplos, há estudos mais complexos demonstrando muito mais. Evidente que isso não autoriza ninguém a cometer crimes, mas a pergunta a se fazer a esses jovens que crescem neste meio não é se eles devem entrar pro crime e sim por que não entrariam.

Atenção: Leitores com mais de 10 de QI devem pular o próximo parágrafo!

Não, não estou defendendo bandido, não estou justificando crimes ou criminosos, não estou dizendo que crime é “justiça social” ou que criminosos tem razão em cometer crimes, não sou contra punição pra criminosos e nem contra polícia combatendo bandidos, não sou comunista e nem socialista, e o único bandido que eu levaria pra casa seriam as vilãs gostosas de filmes policiais.

 

O que analiso aqui é a inesgotável indústria brasileira de criminosos. Já discutíamos segurança pública há 20 anos, quando a imensa maioria dos bandidos atuais eram pirralhos ou nem eram nascidos. E estamos discutindo hoje sendo que os agora pirralhos ou gente que nem nasceu irá aterrorizar a nós e nossos filhos daqui a 20 anos. Quem escreve neste momento não é o Roberto defensor de Direitos Humanos, Iluminismo e Liberdade de Expressão, não é o Roberto defensor incondicional do Estado Democrático de Direito, quem escreve agora é o Roberto cidadão amedrontado, que tem medo de sair e de voltar pra casa, que teme por sua família e entes queridos, que se revolta ao ver uma dentista morrer queimada porque tinha apenas 30 reais pra dar aos bandidos e quer uma solução menos emocional e mais funcional.

As soluções apresentadas pelos que se deixam levar pelas emoções simplesmente não funcionam. O ladrão que deu origem a toda essa discussão foi justiçado e voltou a roubar, tal qual eu previ em meu segundo artigo sobre o tema. Haverá quem alegue que morto ele não rouba mais ninguém. Mas ele vai morrer, a maioria dos criminosos brasileiros vivem pouco. Morrem pela policia, tanto em ações legais quanto ilegais, pela Legítima Defesa das pessoas, por justiçamentos mas principalmente pelos próprios bandidos, seja por quadrilhas rivais ou “tomada de território”. Isso acontece porque a própria estrutura do crime é feita pra isso. Ou alguém acha que o “dono do morro” conta com o atual “soldadinho do crime” pra defende-lo daqui a 5 anos? Não, esse ja deverá estar morto há tempo, ele contará com o guri que hoje está sendo forjado na fabrica de criminosos Brasil. E quem está subindo elimina a concorrência do “jeito bandido”. Esses vão morrer também e outros virão.

O bandido que nos aterroriza hoje não é o mesmo que nos aterrorizava há 10 anos e nem será o mesmo que nos aterrorizará daqui a 10 anos. Enquanto não fechar a “fábrica” nada funcionará. Some-se a isso um sistema carcerário que não recupera ninguém, uma polícia ineficiente e uma legislação arcaica e ai está, roubos, linchamentos, discussões emocionais e 3 artigos pra analisar minuciosamente o que em qualquer país decente não ocuparia mais do que uma nota num blog de curiosidades.

E o que sustenta esta fábrica não é apenas a divisão econômica mas a divisão social, exposta por mim em exemplos neste artigo. O pobre não é apenas pobre, mas alguém cuja dignidade é tratada diferencialmente. Isso tem que mudar pois é a própria essência da fábrica.

 

Este é meu último artigo sobre este caso. Foram meus 3 primeiros artigos no blog e a partir do próximo, analisarei outros temas. Obrigado pela leitura e até a próxima!

Justiça, justiçamento e legítima defesa

No artigo anterior, eu analisei a confusão que muitos fizeram sobre Direitos Humanos e Liberdade de Expressão no caso em que alguns populares espancaram um adolescente e o prenderam num poste, e disse que analisaria minuciosamente o caso separadamente, e o faço neste artigo.

Um grupo de pessoas espancou e prendeu a um poste um adolescente acusado de furtos e roubos. Muitos os criticaram como se fossem demônios extraterrestres que vieram à Terra destruir o planeta, escravizar e matar a raça humana. E muitos os idolatraram como se fossem os próprios membros da Liga da Justiça se materializando. Nem uma coisa e nem outra. Pra analisar o caso com alguma precisão e sem paixões, novamente é preciso esclarecer alguns conceitos.

Justiça

A Justiça existe pra resolver conflitos entre pessoas. Pra isso, são criadas leis e normas a que a sociedade está sujeita. E então a ação do reclamante contra o reclamado é julgada de modo racional e imparcial pra concluir qual parte tem razão de acordo com a lei. A Justiça necessita do contraditório, da ampla defesa do acusado, da apresentação de provas inequívocas contra o acusado pra haver condenação do mesmo.

Importante esclarecer que se o acusado é absolvido, não significa que ele é necessariamente inocente, e sim que a Justiça não conseguiu provar a culpa inequívoca dele. Inclusive alguns sistemas de Justiça, ao invés de usarem o termo inocente, usam a expressão não culpado, ou seja, a culpa do acusado não ficou evidente e este pode ser inocente, então o não culpado recebe o mesmo tratamento do inocente, pois na dúvida, pró réu.

Isso não acontece porque a Justiça é “boazinha”, mas sim porque uma das condições inquestionáveis da Justiça é nunca punir inocentes. Certamente não é justo um culpado ficar impune, mas indubitavelmente é muito mais injusto um inocente ser punido, e considerado oficialmente culpado por algo que não fez.

E por fim, mesmo em caso de condenação, a pena ao condenado deve ser dura, proporcional ao delito cometido mas nunca cruel. E isso também não é por ser “bonzinho”, mas não tem sentido haver um sistema sofisticado e civilizado de Justiça que culmine numa pena “medieval”, e além disso a Justiça sempre está sujeita a erros, por mais que se tente evitar a condenação de inocentes. No caso de um inocente ser condenado e posteriormente o tribunal admitir o erro, uma indenização pode de alguma forma confortar a o condenado injustamente, mas se alguma atrocidade acontecer com este, nenhuma indenização tem qualquer serventia pois nada apaga uma crueldade.

Justiçamento

O justiçamento não tem nada a ver com Justiça. Não há contraditório, o acusado não tem nenhuma chance de se defender, a chance de punir um inocente é enorme e raramente a pena não é a mais pura barbárie. O justiçamento acontece aonde a Justiça não existe ou não chega, e pra todos os efeitos práticos, aonde a Justiça não chega é como se ela não existisse.

Todo justiçamento é uma resposta do grupo a um problema local. Se alguém incomoda os moradores de uma vila, estes retaliarão quem os incomoda. A Justiça surgiu com a evolução das sociedades, pois não raro justiceiros se tornavam um problema pior do que o motivo que os criaram. A Justiça deve ser funcional pra que justiçamentos não surjam.

Exempos de justiçamentos ocorrem na “justiça da cadeia”, “leis do tráfico”, milícias e esquadrões da morte. Importante acrescentar que os exemplos dados acontecem na ausência ou inoperância do Estado e, convenhamos, ninguém em um mundo civilizado quer estar sujeito a nenhum dos exemplos acima, até pela imensa probabilidade de perversão das “justiças” citadas.

Legítima Defesa

A Legítima defesa ou defesa legítima acontece quando o agente defende a si ou a outrem de agressão iminente. Alguns dizem que esta agressão deve ser injusta mas isso não tem sentido. Se o agente atira em quem vai lhe dar uma facada, mesmo que o ataque tenha sido provocado pelo agente, que se puna a provocação que deu origem a tudo e não a defesa de sua vida. Toda defesa contra ataque iminente é legítima, não se pode tirar o direito de defesa devido a conduta anterior do agente sob ataque. Melhor usar o termo agressão ilegal pra caracterizar a LD.

Pra caracterizar legítima defesa, o ataque deve ser iminente e a LD deve encerrar imediatamente com o cessar do ataque. Se o agente dá um soco no queixo do agressor e este cai desmaiado, agredir o agressor a partir daí não é mais LD, é agressão mesmo, e agressão covarde contra quem não oferece risco iminente e nem pode se defender. A LD não deve ter excesso, se for possível parar o agressor com 2 tiros, o terceiro é excesso. Importante frisar que o excesso se dá, no caso de arma de fogo, após a primeira sequência de tiros, seja ela quantos tiros for. Se ainda assim o agressor prossegue investindo, o agente pode atirar novamente sem configurar excesso.

Alguns dizem que a LD deve ser proporcional ao ataque, ou seja, se o agente tem um revólver e uma faca e o agressor ataca com uma faca, o agente deve usar apenas a faca. Eu sou um dos que discordam disso, afinal porque o agente atacado deve se expor sua vida e integridade pra resguardar a vida e integridade do agressor? Essa é uma exigência típica do “excesso civilizatório” que analisarei minuciosamente em outra oportunidade.

Existe Legítima Defesa preventiva? Muito cuidado aqui! Quem alega a possibilidade de LD preventiva argumenta com a potencialidade da agressão. Esse argumento, levado às últimas consequências, poderia justificar a prisão ou eliminação de todos os homens pois todo homem pode, potencialmente, estuprar alguém.

Mas e no caso do ladrão que rouba todos os dias em determinada rua? Não seria o caso de supor com alta probabilidade que ele roubará amanhã e ataca-lo antes? Se um ladrão rouba todos os dias numa determinada rua, ele deveria estar preso há muito tempo. Aí entra o justiçamento na ausência da Justiça que me referi anteriormente. Não deixa de ser um justiçamento, mas se funcionar haverá quem diga que houve LD. Mas funciona? Pode funcionar mas papagaio não vira humano porque sabe repetir o que ouve. Os conceitos devem ser bem definidos pra não confundirem as coisas.

Eu sei, é chato ter que ler todo este calhamaço de conceitos, mas é um pequeno esforço pra poder entender bem cada caso. Entendendo os conceitos, que eu tentei resumir o máximo que pude, fica bem fácil saber aonde se encaixa a atitude dos justiceiros que agrediram o menor no RJ. Além disso, toda análise minuciosa tem que ser muito bem explicada em mínimos detalhes. Afinal, é a isso que este espaço se propõe.

Enfim, tendo por base os conceitos, pode-se dizer que os justiceiros que agrediram o menor:

Fizeram Justiça? Não!

Fizeram justiçamento? Sim!

Praticaram Legítima Defesa? Não!

Não fizeram Justiça por razões óbvias, é só ler o conceito de Justiça e ver o que eles fizeram pra entender que o ato passou longe de Justiça. Não praticaram Legítima Defesa também pelo conceito descrito. Agredir um assaltante porque ele vai assalta-lo amanhã não garante que ele não o assalte depois de amanhã quando estiver recuperado da surra e, pior, não garante que ele não queira, além de assaltar, se vingar das agressões sofridas, não necessariamente nos agressores.

Sim, o que eles fizeram foi justiçamento. Daí a dizer que os justiceiros são o sal da terra é outro exagero. Consta que o menor agredido tinha 3 passagens pela polícia. O que estava fazendo nas ruas então? Como eu disse, justiçamentos acontecem quando a Justiça não existe ou não funciona. Se a Justiça e as leis não resolvem o problema das pessoas, estas fazem suas leis e suas “justiças”. Antes de cobrar os justiceiros, que devem responder por seus atos, deve-se cobrar o Estado, cuja omissão rendeu este lamentável episódio.

E nem adianta perguntar por que eles não amarram e agridem banqueiro e político corruptos. Não amarram e agridem por que não podem, porque não tem acesso a estes. Se pudessem, fariam a mesma coisa. Como não podem, fazem outro tipo de justiçamento, como sonegar impostos por exemplo, já que sabem que o que pagarão não voltará em benefícios pra eles, e sim entrará em algum caixa 2 de algum esquema de compra de votos, por exemplo.

Mas seja menor pobre ou banqueiro e político corruptos, convenhamos, não é este tipo de punição(amarrar e espancar) que queremos numa sociedade civilizada. Que prendam todos os criminosos, sejam corruptos, justiceiros ou simples assaltantes.

Direitos Humanos, Liberdade de Expressão e a salada tupiniquim

O caso que rende muitas discussões nesta semana é a do jovem que foi espancado e amarrado num poste no Rio de Janeiro. O ato, as reações ao ato e até mesmo as reações às reações foram combustível pra discussões a perder de vista. Infelizmente, assim como acontece em outros casos, aqui também misturaram conceitos e houve reducionismos absurdos. Pra explicar todos os erros que houveram na repercussão deste caso, preciso explicar resumidamente alguns conceitos.

Direitos Humanos

Direitos Humanos existem pra proteger os indivíduos de um Estado dos abusos do mesmo. Sabendo que vários regimes totalitários e ditatoriais oprimiram seus cidadãos ao longo da história, os DDHH foram criados pra não permitir mais abusos do poder estatal contra as pessoas. Assim, somente o Estado viola Direitos Humanos, por ação(principalmente) ou omissão(em casos específicos). Portanto, o ladrão que rouba sua vítma não comete violação de Direitos Humanos, e sim comete o crime de roubo. E se populares o agredirem, também não violam DDHH, e sim o crime de lesões corporais. Violação de Direitos Humanos aconteceriam, por exemplo, se o Estado se apropriasse de propriedade privada das pessoas ou se seus agentes a agredissem já rendidas. Violações de Direitos Humanos é o Estado que faz, o cidadão comum comete crime.

Liberdade de Expressão

A Liberdade de Expressão é um direito em um mundo livre que respeita Direitos Humanos. A LE está intrínsecamente ligada ao conceito de Liberdade e se relaciona diretamente com outras liberdades, como de ir e vir, se associar com outras pessoas, escolher uma profissão, etc… Embora sejam liberdades diferentes no conceito, elas se relacionam e cada uma depende das outras pra existir.

Assim como no corpo humano, coração, fígado e pulmão são órgãos diferentes mas cada um precisa que os outros funcionem pra funcionarem também, o mesmo ocorre com as liberdades. Não faz sentido alegar Liberdade de Expressão pra defender a escravidão, uma vez que um escravo não tem liberdades, nem a de se expressar. Então podemos dizer que Liberdade de Expressão deve sim ser absoluta, e a defesa da destruição de liberdades nada tem a ver com LE, é apenas embuste.

A LE é o direito de ter opinião num mundo livre, mas se este mundo não for livre, não há como ter LE. Se virem alguém alegar LE pra condenar um mundo livre, saibam que estão diante de um picareta. Quem alega “direito de liberdade” pra destruir a Liberdade e o Direito não passa de um impostor. O que ele exerce não é a Liberdade de Expressão e sim discurso totalitário e/ou autoritário. E, nos casos deste discurso por em risco a Liberdade e o Direito das pessoas, ou mesmo instigação de crimes, seu autor deve responder na Justiça por seus atos.

Importante destacar que a Liberdade de Expressão é poder dizer e dever ouvir. O direito de resposta é essencial. O seu direito de dizer não é condicionado à aprovação de outro, porém o outro também tem direito de se manifestar incondicionalmente. É o famoso “quem fala o que quer, pode ouvir o que não quer”

Deu pra entender bem os conceitos básicos de DH e LE? Se não deu, releia o texto porque daqui pra frente é fundamental entender os conceitos acima pra fazer uma análise minuciosa do caso.

A primeira polêmica deste caso é que alguns ativistas de Direitos Humanos disseram que o adolescente agredido sofreu violações de seus Direitos Humanos. Não, não houve violação de Direitos Humanos por parte dos agressores do rapaz. O que houve foi crime comum, praticado por cidadãos comuns. Se há alguma justificativa para o que eles fizeram, não cabe discutir neste artigo, mas o fato é que as pessoas que agrediram o jovem cometeram o crime de lesões corporais. Não foi a polícia que agrediu, não foi o juiz que mandou agredir, os deputados não aprovaram nenhuma lei que permita tal agressão, e nem o presidente, as forças armadas ou qualquer esfera estatal tiveram algo a ver com a agressão. Talvez todos ou alguns deles tenham responsabilidade das coisas terem chegado aonde chegou, mas isso deixo pra outra análise minuciosa.

A segunda polêmica se deu por uma jornalista do SBT, Rachel Sheherazade, ter afirmado ser “compreensível” a atitude dos agressores. O artigo ia ficar muito grande se eu fosse explicar aqui o que é a Presunção de Inocência, ignorado pela jornalista. Mas não é tão relevante porque nesta parte do artigo eu apenas analiso a questão da Liberdade de Expressão da jornalista.
Pra mim ela “bateu na trave” da incitação criminosa que eu me referi na explicação do conceito de LE, mas a “bola” dela não chegou a “passar totalmente a linha do gol”. Em favor dela pode-se argumentar que a mesma considera que atos como este podem ser explicado pela impunidade brasileira, assim como tem gente que diz que outros crimes também podem ser explicados pelas desigualdades brasileiras.

Dizer que compreende(de compreender, entender) ainda não é apoiar. Até tive a impressão que ela foi cuidadosa com as palavras pra não dizer o que realmente pensa, mas isso é achismo meu e não vou basear qualquer análise minuciosa em achismos. Pra todos os efeitos práticos, a única coisa que ficou evidente foi ela demonstrar entender a agressão.

A partir disso, teve quem pedisse uma mordaça na jornalista, o que sou contra, mesmo discordando totalmente do que ela disse. Eu não gostei do que ela disse porque divirjo da posição dela mas não entendi que ela incitou algum crime. Pasou perto. Assim como passa perto aqueles que dizem “quem não pagar imposto vai pagar resgate”. Curiosamente estes últimos engrossaram a lista daqueles que viram incitação ao crime por parte da jornalista, mas isso fica pra outra análise.

E teve também os que defenderam ferrenhamente a jornalista, que aliás foram muitos. Alegaram principalmente a defesa da Liberdade de Expressão. Lembram o que eu disse na explicação do conceito de LE? Pois bem, Rachel também mandou defensores de Direitos Humanos levar o rapaz pra casa, aparentemente mostrando ignorar profundamente o que são e pra que servem os Direitos Humanos. Mas tudo bem, ela tem sim o direito de ter dito isso também. Porém, os que defendem a LE da Rachel defenderiam o contraditório? Defenderiam o direito de resposta, fundamental na Liberdade de Expressão, se algum ativista de DDHH pedisse isso junto ao SBT, ou fosse na Justiça pra ter este direito?

Defender a Liberdade de Expressão somente da parte com a qual concorda faz parte dos embustes sobre LE que expliquei anteriormente.

Finalizo dizendo que censurar é errado, negar a réplica a quem se sentiu atingido também é. Como disse, Liberdade de Expressão é a sua e a do próximo, e se ele tem que te ouvir, você também tem que ouvi-lo.